Galeano

Eu gosto de Eduardo Galeano. Ele tinha alguns hábitos como os meus, gostava de ficar acordado à noite, tomava chimarrão com frequência, gostava de cachorros e preferia a vida simples ao luxo.

Esses tempos, quando estive em Montevideo, caminhando pela beira do Rio da Prata, tomando um chimarrão e sentindo aquela brisa da manhã da capital dos uruguaios, eu senti um pouco do ambiente que inspirava Galeano. Na verdade, queria até poder ter encontrado o jornalista ao acaso para trocar algumas palavras e agradece-lo por ter contribuído com nossa América Latina. Possivelmente eu ia tirar uma foto também pra colocar nas redes sociais. Hehe

Mas o que me fez gostar de Galeano não foi seu estilo de vida e sua simplicidade, que na verdade descobri mais tarde. Antes de tudo veio a simpatia intelectual. Conheci Galeano em As Veias Abertas da América Latina, obra que tomei conhecimento só na faculdade de História.

Todo bom historiador, cientista social, jornalista e estudiosos de áreas afins deve ler As Veias Abertas… uma obra inovadora de 1971, que acabou sendo proibida em alguns países pelos regimes militares (inclusive no nosso Brasil), devido à sua “subversão”.

As Veias Abertas… mostrou uma visão diferenciada sobre nosso passado colonial nos anos 1970, uma época em que, no Brasil, por exemplo, se falava que vivíamos uma “democracia racial”, que vivíamos com a mistura da cultura portuguesa, africana e indígena. Os pensadores da época – bastante conservadores – falavam em sermos uma extensão da civilização europeia, como se fosse uma dádiva termos sido colonizados por portugueses, espanhóis e outros.

Galeano, entretanto, abria sua obra assim:

“Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta. Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçoou suas funções. Este já não é o reino das maravilhas, onde a realidade derrotava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus das conquistas, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como um serviçal.” (As Veias Abertas da América Latina)

Galeano era jovem na época de As Veias Abertas… cresceu como escritor e pensador depois de sua obra clássica. Aos poucos foi dilapidando sua visão intelectual, mas sempre vendo o mundo pelo sul, da América Latina se preocupava com a África e Ásia.

Hoje Eduardo Galeano morreu.

Fico triste, não apenas pela morte de um homem. Mas tenho perdido nos últimos anos algumas referências. O britânico Hobsbawn, o maior historiador do século XX (na minha humilde opinião) se foi há pouco, assim como nosso grande poeta e escritor Gabo (Gabriel Garcia Márquez, da Colômbia, dos Cem Anos de Solidão) também partiu.

Fico pensando se teremos grandes referências no futuro. Em especial, Galeano e Gabo ajudaram muito a enxergarmos o que somos, a América Latina, o sul do Mundo.

Hoje, tomo um chimarrão sentindo a temperatura amena do outono do sul e escrevo para agradecer a Eduardo Galeano. Obrigado. Fique em paz, Hermano.

Cruzei com uma menina, muito nova, devia ter uns dois anos, não mais que dois, que vinha brincando na direção oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha, as plantinhas.

“Bom dia graminha”, dizia: “bom dia graminha”

Ou seja, nessa idade, somos todos pagãos e, nessa idade somos todos poetas, depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma.

Mais de Professor Bussunda

O ilustre Manolis Glezos

A história é uma ciência social, ou seja, por mais óbvio que...
Ler mais