Por que criticam a Reforma do Ensino Médio?

Michel Temer
Foto: Marcos Corrêa/PR

Fala galera do MundoEdu! Firmeza? Olha só, hoje trazemos à tona algumas pautas relativas à considerações sobre a Reforma do Ensino Médio, sem dúvidas um dos assuntos mais discutidos desses últimos meses no país. Afinal de conta, por que criticam a Reforma do Ensino Médio?

Já avisamos que esse post não foi pago pelo governo e que não faremos nenhum vídeo patrocinado pelo Michel Temer. (hehehe vocês tão sabendo que teve gente levando um dinheiro aí pra falar bem da Reforma, né?)

Pois bem, vamos fazer uma análise onde buscaremos entender o que vai mudar e qual a razão que leva muitos a criticarem isso.

1. A falta de diálogo

De saída, temos que destacar que uma Reforma no ensino é uma coisa complexa demais pra ocorrer de supetão ou, como foi, por medida provisória. Uma MP (medida provisória) é uma lei de emergência lançada pelo presidente e que tem prazo de 4 meses para ser aprovada por deputados e senadores. Já havia uma discussão anterior e algumas tendências a apontar projetos de lei entre os deputados desde a Dilma, mas nada concreto. Então em poucos meses veio o MP e sua aprovação com poucas mudanças no texto proposto pelo presidente.

O governo afirmou que a Reforma iniciou por MP devido à emergência que temos de reorganizar e aprimorar o Ensino Médio, visto que nossos índices educacionais não estão nada bem. Mas de qualquer maneira, parece exagerada a falta de diálogo.

Só pra fazer um comparativo, no meio dos anos 80, quando saíamos da Ditadura Militar, ocorreram intensos debates sobre os rumos no ensino após a ditadura. Esses debates reuniram educadores, estudantes, pessoas envolvidas no Ensino Médio e superior. Além de autoridades políticas como secretários e chefes de departamentos, que também participaram dos debates. Não foi algo simples, foi de ampla discussão. O que ocorreu entre o fim de 2016 e o início de 2017 parece ser brincadeira de tão fechado que foi.

2. As questões propostas

Analisando o que foi aprovado recentemente pelos deputados e senadores, ficam algumas lacunas e críticas.

  • Uma das principais críticas é quanto a essa divisão em 5 áreas (a saber: Matemática, Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Ensino Técnico). As escolas terão que oferecer um desses “itinerários” pelo menos. Mas atenção: terão que oferecer UM, talvez dois, mas achamos quase impossível que uma escola pública vá oferecer os cinco itinerários.

Qual o problema disso?

E se na sua cidade existir só uma escola e ela oferecer só o ensino técnico, como você vai se preparar para ser médico, por exemplo? Essa é uma realidade. Eu nasci numa cidade pequena que só tem uma escola de ensino médio. E aí, como lidar?

  • O Ensino Técnico junto com o Médio foi uma ideia dos militares nos anos sessenta. O aluno optava por fazer o técnico e já saia trabalhando. Ótimo. Mas e se em algum momento você resolver mudar de ideia e quiser fazer o Ensino Superior? Você está preparado para fazer um vestibular ou o ENEM? Outra: queremos formar mão de obra barata (Ensino Técnico) ao invés de fomentarmos o Ensino Superior com pesquisas?
  • Sabemos que os itinerários são caminhos não fechados, ou seja, correspondem a 40% da carga horária do Ensino Médio, os outros 60% são da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que ainda não está definida e talvez nem fique pronta para este ano. Interessante isso. Mas o fato é que aos 15 anos (idade por volta da qual se entra no Ensino Médio) já temos que ter uma noção do que queremos para o resto da vida. Por exemplo, se você quer fazer Medicina, tem que optar pelo itinerário das Ciências da Natureza. Isso é bom ou ruim?

É bom por um lado, pois nos “reforçamos” numa área, mas:

Quantas pessoas aos 15 ou 16 anos sabem o que querem pra carreira profissional?

Falo por mim e por dados estatísticos. Dos 18 aos 20 anos eu muito pensei em que carreira abraçar. Pensei em Design, em Fisioterapia, Odontologia, Direito, História, etc. Entre o último ano do Ensino Médio e os primeiros semestres da faculdade foram muitas dúvidas até eu decidir ser, de fato, professor de História. Dados de poucos anos atrás mostram que muita gente – em algumas universidades quase a metade dos alunos – troca de curso depois de iniciar a faculdade. Então, imagine se aos 15 você queria ser médico e foi no itinerário pra isso e aos 20 decide ser jornalista?

A equipe do Ministério da Educação chegou a afirmar que o Ensino Médio é monótono, chato.

Eles tem razão, já trabalhei em escolas e sei como funciona essa coisa de um monte de informações despejadas, de burocratismos, de extensas explicações num quadro negro sujo de giz quando se vive num mundo que tem internet e o audiovisual prevalece. A escola é defasada.

Mas o que surge de ideia então?  Criar “itinerários” e aumentar a carga horária total para quase o dobro, com a ideia de escolas de turno integral. Se você escolher o itinerário da Matemática, por exemplo, vai ter muitas aulas de Matemática, aprofundar assuntos. Isso não vai ser necessariamente renovador. Poderá se tornar extremamente chato. Deveríamos pensar em deixar a formação do conhecimento mais dinâmico, começamos a fazer um conhecimento repetitivo. Por que não colocar teatro, música, cinema, etc, no currículo escolar, o que poderia tornar a escola muito mais atraente?

  • Tem uma questão que parece controversa. No ano passado foi aprovado pelo governo uma espécie de “congelamento” em investimentos por 20 anos, o que atinge também a educação. Agora o governo diz que vai aumentar a carga horária. De 800 horas para 1400 no ano, como já falamos é quase o dobro. Só que pra aumentar a carga horária existe, obviamente, o aumento do gasto com os professores. Como fazer isso com investimentos congelados? Como implementar o Ensino Técnico, que demanda estrutura de máquinas e oficinas, neste mesmo cenário?
  • Existe um outro ponto polêmico e ainda não bem esclarecido que é o da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Apesar do governo dizer que nos próximos meses ela será apresentada, há analistas que falam que só em 2018 será viável. Mas o problema não é nem a questão das datas. O problema é o conteúdo da BNCC. Sei que a Associação Nacional dos Professores de História (ANPUH) analisou os documentos iniciais do que a Base sugeria para história e há um monte de mudanças desagradáveis, com exclusão de conteúdos e enfoques diferentes.
    São várias lacunas e muitos questionamentos deixados por essa “Reforma” que não me parece reforma, parece mais um Frankstein educacional.

Fazer reforma do Ensino Médio sem fazer reforma no Ensino Básico (?)

Aumentar (quase dobrar) a carga horária enquanto os investimentos em educação estão congelados. Fragmentar o conhecimento em áreas em um mundo que é cada vez mais interdisciplinar e o conhecimento é amplo. Deixar obscurecido pela BNCC o que vai existir ou não no Ensino Médio.

Tudo muito complicado. Tal complicação vem, principalmente, da ideia de emergência e da falta de diálogo com a sociedade. Sobretudo, do diálogo com os profissionais da área de educação.

3. Fator tranquilizador (por enquanto)

Antes que você, leitor do nosso blog, roa as unhas e os dedos, lembramos que tudo está em fase de construção. Quem vai fazer o ENEM agora ainda não vai viver essa mudança ou ver isso como reflexo na prova. Em 2017 e nos próximos 2 ou 3 anos acreditamos que a estrutura da prova vai permanecer igual.
No futuro, entretanto, não podemos ainda prever como a Reforma do Ensino Médio vai impactar na formação dos nossos estudantes. Nem em como vai impactar processos de seleção para a universidade como o ENEM.

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