O mundo líquido fica mais líquido

Confesso que demorei muito em minha vida para compreender e aceitar a ideia de pós-modernidade. Eu pensava: como assim? Pós-moderno? Depois de moderno? Mas qual o nome do que veio depois do moderno? Eu não compreendia e não entendia. Zygmunt Bauman com certeza foi um dos pensadores que mais me ajudou a entender esse momento em que vivemos. E preferiu não chamar de pós-modernidade, mas de Modernidade Líquida.

Esses tempos em sala de aula criei uma analogia pra explicar os diversos “pós” (pós-moderno, pós-colonial, pós-escravista, etc). Falei do “pós-namoro”, ou seja, não falei da solteirice, mas do tempo em que, depois de um namoro, você ainda não está livre da(o) ex. O namoro terminou, mas você não está procurando outra(o) namorada(o), pode até estar com alguma esperança de voltar, está nostálgico lembrando dos bons momentos e coisas assim. Aí quando ouve o alerta do WhatsApp, pensa já na(o) ex; numa dessas você vai lá e posta no Facebook algo do tipo “tô me livrando de tudo que me faz mal” como indireta para a(o) ex. Isso não é estar solteiro, é o “pós-namoro”, não houve o desapego ainda.

Bauman não falou do pós-namoro, não se preocupem; mas foi ele que me ajudou a compreender que existem essas rupturas e interregnos. Esse momento “pós”, onde algo se desfez mas ainda não tem nada novo construído. Desde o século XIX Marx já havia falado que “tudo que é sólido desmancha no ar” (se referia à crise do mundo dirigido pela nobreza).

Foi só no fim do século XX que o polonês Bauman criou esse conceito pra explicar que a solidez do mundo se foi, que os valores e estruturas construídos à muitos séculos foram sendo dizimadas.

Na verdade, Bauman acreditava que o mundo não conseguiu ganhar solidez desde a queda do Antigo Regime. Bem ou mal, aquele mundo que perdurou até o século XIX tinha valores sólidos.

Bauman também devia estar insatisfeito ou descrente pelo fato do socialismo não ter dado certo e o Socialismo Real soviético ter morrido. O mundo capitalista triunfante, do final do século passado, passava a transformar tudo em mercadoria e a precificar a todos. Para o polonês, isso ajudou muito na dissolução da modernidade e a perda de identidade do mundo em que vivemos. A modernidade líquida, expressão cunhada por Bauman, apresenta diversas formas de líquidos, como o amor, o medo, a segurança, etc. Tudo torna-se líquido pelo consumismo e artificialidade.

Em O Amor Líquido, o sociólogo fala que a autoajuda e as facilidades das comunicações haviam arruinado os relacionamentos.

Bauman chegou a comparar as relações amorosas atuais com janelas de diálogos do Facebook. Estamos com várias janelas abertas, mantendo diversas conversas, sem compromisso de dar tchau, de se despedir e encerrar um diálogo; assim como estamos numa relação, em poucos minutos já não estamos (típico daquelas pessoas que conhecemos e que tem um novo “amor da vida” a cada estação).

Mas além do pensamento – distribuído em uma obra vasta – sempre curti a biografia de Bauman. Ele lutou pela União Soviética na 2ª Guerra Mundial, combatendo o nazismo, e foi no exército que ele conheceu sua esposa – Janine Bauman – num campo de refugiados. Depois da guerra, graduou-se em sociologia na URSS e se tornou professor na Universidade de Varsóvia. Nos anos 1960 sofreu perseguições e censura dentro do mundo socialista e acabou indo pra Inglaterra, onde virou professor na Universidade de Leeds, desde os anos 1970.

Zygmunt Bauman
Zygmunt Bauman

Bauman não foi apenas um teórico. Viveu uma vida intensa, com a guerra, as perseguições. Mas foi só depois de sua aposentadoria nos anos 1990 que se debruçou sobre sua grande reflexão: o mundo líquido, tentando compreender isso que muitos chamam de pós-modernidade. Bauman ainda teria muitas contribuições e reflexões para a busca do entendimento desse mundo que parece cada vez mais irracional. Mas quando Bauman tinha 91 anos fazia nem 2 meses, o destino resolveu separá-lo de nós. Bauman – que sempre esteve lúcido – faleceu; a causa não foi divulgada.

Quando meus amigos me avisaram pelo WhatsApp do ocorrido, apenas fiquei reflexivo. Este mundo líquido possivelmente não formará novos pensadores como Bauman.
O mundo líquido ficou ainda mais líquido, mais sem forma e sem compreensão.

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  • Lis

    Um mundo cada vez mais líquido :'(

  • Isabela Maria Arantes

    Ótimo